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Farnesim / Bem-me-quer / Mal-me-quer – por Suzana S. Nolasco

sexta-feira, 11 março , 2016

Essa é a história de uma história. Sombras que me acompanham, vão aí mais de 15 anos, vez por outra, como agora, ganham luzes e, sempre mais, ganham força.

 
Essa é a história de uma história. Sombras que me acompanham, vão aí mais de 15 anos, vez por outra, como agora, ganham luzes e, sempre mais, ganham força.
 
É a história das mulheres castanheiras do Nordeste. O fato aconteceu no Ceará, lá pelos anos 80. Século passado: um colega nosso, de conhecida e reconhecida competência, foi chamado pelo então diretor de um hospital psiquiátrico da região que enfrentava uma situação bastante exótica. Um número crescente de mulheres apresentava um conjunto de sintomas corporais, tais como tremores, paralisias, descontrole de movimentos, estados confusionais. Em bom brasileiro, nossa língua nativa: – tremeliques. Todas trabalhavam em uma fábrica de aproveitamento de castanhas, onde lhes cabia, exatamente pela delicadeza de suas mãos, quebrar a casca, liberando a castanha sem danos, sem quebra, o que desqualificaria o produto. Com certeza, apoiados nos saberes de Freud e Martin Charcot, o diagnóstico não poderia deixar de ser histeria, quiçá Psicose, Histeria arcaica, Psicose histérica. O curioso era o número crescente de mulheres que apresentava o dito quadro, por elas chamado de FARNESIM. Não menos curioso o local onde os surtos mais se manifestavam: o refeitório da fábrica. Lugar esse de encontro, lugar de estar com, lugar do prazer de comer.
 
Importante marcar que o surgimento dessas fábricas, exploradas por estrangeiros, com finalidade exportadora, mudou a dinâmica das relações na região. Os homens não arrumavam emprego. Eram brutos demais para trabalho tão delicado. Não se preocupavam em buscar outras atividades – as mulheres levavam dinheiro para casa. Assim, passavam o dia nos bares bebendo pinga e jogando sinuca, truco e, à noite … bem, à noite, esperavam suas mulheres para, depois da janta, “machucá-las”! Machucar, no Norte e Nordeste, equivale ao convite de transar, trepar, fazer amor, entre nós.
 
Ali, toda violência do macho encontrava poderosos aditivos – desemprego, desalento, descrença, alcoolismo. Pauperismo = pobreza e desamparo. Ali, à noite, o macho descontava, na fêmea, a raiva pela sua impotência diante da vida. Pela quebra de seu poder. E, de fato, machucava. Para, de novo, por instantes, se sentir macho, ainda que não homem.
 
Essa história me capturou por muitas razões, algumas óbvias, outras nem tanto, algumas de ordem pública, outras de ordem privada. Mas, curiosamente, dois detalhes se destacaram mais:
 
10 – Dois homens importantes, ocupados, preocuparam-se e, posteriormente, ocuparam-se com essas mulheres. Dois homens se emocionararn diante delas, com elas, colocando-se na posição de proteger aquele espaço-criação por elas instituído.
 
20 – Continuando a história: essas mulheres se organizaram na ternura da amizade e, com filigranas de amor, teceram novas possibilidade. Onde havia a violência da paixão fez-se a doçura de novas relações! Lá, no hospital psiquiátrico, de onde não queriam sair, construíram amores, cores, prazeres, gozos, alegrias. Lá, uma enfeitava a outra com laços coloridos de papel crepom, com rodelinhas de rouge nas bochechas.
 
E… na loucura que as curava da insanidade do mundo lá fora, elas inauguraram uma nova política: a da amizade.
 
Do livro Para uma Política da Amizade – Arendt, Derrida, Foucault, de Francisco Ortega, garimpado, para meu deleite e gratidão, pelo Chaim Katz, mais do que um mestre, um amigo, cito Nietzsche: “A boa amizade – a boa amizade surge quando se considera de fato o outro e, na verdade, mais do que a si mesmo, quando se lhe ama, todavia não tanto quanta a si mesmo e quando, finalmente, para facilitar as trocas, sabemos acrescentar o delicado toque e o frouxel da intimidade, mas ao mesmo tempo nos abstemos prudentemente da intimidade propriamente dita e da confusão do eu com o tu”.
 
Tudo isso para chegar ao tema “Sexo e saúde” que, de tão pertinente, me tirou muitos sonos e ocupou muitos dias de reflexões e leituras.
 
Como é isso nos tempos de agora? Novo século, ainda sob a regência do velho. Tantas novidades tecnológicas. Tantas propostas mirabolantes , tais como expectativa de vida em torno dos 100 anos.
 
“Como produzir depois dos 70, 80 anos, quando a vida social não recebe mais a sua produção?” (Katz).
 
O que é isso para homens e mulheres, machos e fêmeas? O que é ficação?!…
 
Como é isso nas neossexualidades? Nas novas conjugalidades? No parentesco por banco de esperma? Como dar conta das imposições estéticas que nos são introjetadas pelos meios, cada vez mais rápidos e abrangentes, das comunicações?!. .. Que mídia é essa? A quem ela atende?
 
Joana de Vilhena Novaes, no seu projeto de doutoramento em Psicologia na PUC, queria escrever sobe a beleza. Acabou escrevendo sobre O Intolerável Peso da Feiúra, sobre as Mulheres e seus Corpos, felizmente. Eu recomendo a leitura, recheada de pesquisas e interessantes considerações.
 
Com Philip Roth, mergulhei na leitura de Homem Comum, uma narrativa direta e íntima, tendo o corpo humano como território e a atualidade como palco de expressões múltiplas. A despeito de tudo – de todas as grandes invenções – felizmente, como diria Nietzsche – seguimos caminhantes rumo à morte. “SI VIS VITAM PARA MORTEN”, cita Freud, em sua correspondência a Einstein.
 
“Se queremos viver bem, devemos nos preparar para a morte”.
 
“Quanto custa, hoje, viver? E morrer?!…
 
E nem a “mulher-bunda-bombada-de-anabolizantes”, com sua voz de homem e nem o “homem-canhão-sem-alvo”, bombado de químicas excitantes, nem os ficantes e os ficados podem impedir este destino como processo e fim.
 
Aí, não importam os tempos ou o “quantum” de tempo. Há um tempo: o de viver cria-ativo. Considerando o corpo como lugar de trocas, perdas, ganhos. Oficina de artes e manhas. Considerando 0 belo e o feio, o novo e o velho, o vivo e o morto! Considerando o homem como… comum. E, se as políticas familiares dominantes, ortodoxas, com seus dramas passionais rodriguianos não corresponderam às expectativas do judaísmo-cristão de nos re-conduzir ao paraíso ou nos garantir o mesmo depois do juízo final (no mito, perdido por duas mulheres, Lilith e Eva) que tal nos abrirmos, criticamente – no sentido grego – para um novo exercício político, apontado no trabalho de Ortega, tendo como linha mestra a noção do político, implícita nos textos de Derrida, Arendt e Foucault?!. .. Eles desenvolvem uma altemativa a despolitização, ao esvaziamento de espaço público, característico da sociedade contemporânea. Nesse contexto, a amizade pode constituir uma forma de re-traçar e re-inventar o político. Ante uma sociedade que limita e prescreve as formas de relacionamento, “a amizade seria a experimentação de novas formas de sociabilidade”.
 
Lembremo-nos das castanheiras.
 
Em Arendt: “a superação das diferenças”. Ela diz: as divergências são suprimidas para defender a ideia de que os argumentos devem ser avaliados segundo os seus méritos e não segundo a identidade dos argumentadores”.
 
John Lenon, caso conhecesse Arendt, talvez, não precisasse morrer.
 
Em Foucalt – “a subjetividade se constitui através das técnicas de si, as quais não representam um exercício solitário … a presença de outros indivíduos e imprescindível no processo de autoconstituição. O outro é indispensável para que as práticas de si atinjam a forma de existência desejada”.
 
Campo transferencial?!…
 
Em Derrida: – “Se no presente não há amigos, façamos então que os haja daqui em diante, amigos dessa amizade soberana e senhora. E a esses fraternos amigos que apelo, respondam-me, essa é a nossa responsabilidade. A amizade não é nunca uma coisa dada no presente, ela faz parte da experiência da espera, da promessa ou de compromisso. Seu discurso é o da oração, ele inaugura, não se contenta com o que e, se coloca no lugar onde uma responsabilidade se abre ao futuro”.
 
Digo eu: ao novo. A uma nova ética. Um futuro com lugar para todos. Mesmo para aqueles fora do padrão. Nao sera aí, fora do padrão, na quebra do padrão – o pai grande ou grande pai – aí, no vazio (diferente de falta), que estará o nosso ateliê de criação. O nosso setting? Criação como potência. Potência diante da própria impotência.
 
Agamben rediscute o conceito de potência. Giorgio Agamben, continuador de Foucault, de Derrida, no livro Profanações – uma obra poética mostra-nos como resistir ao poder que subjuga, mostra-nos que podemos “des-criar o que existe” tentando ser mais fortes do que está aí. Ele diz: “isso equivale a ir em busca da infância, ou seja, da nossa capacidade de jogar e amar … de subjetividade, de liberdade humana, de cesuras entre “um poder-ser e um poder-não-ser”. Isso, sim, é vazio. Ele insiste: “… um mundo em que tudo é necessário e nada é possível é um mundo sem sujeito, um mundo sem liberdade, sem possibilidade de criação”.
 
Chaim, no encontro para pensar o futuro (A INVENÇÃO DO FUTURO), encontro de grandes cabeças, troncos e membros (Jorge Forbes, Miguel Reale Jr., Tércio Sampaio Ferraz, Chaim Katz e outros) diz; o que eu gosto mais nas mulheres e na chamada revolução feminina é que não há igualação, equanimidade com o masculino, mas a colocação em obra de algo que o sexo masculino não é capaz… quando as mulheres fazem valer os seus direitos e a sua força, conduzem a humanidade a um registro diferente”.
 
Freud concorda. Vide sua obra.
 
No mesmo encontro, Jorge Forbes marca o nosso tempo como uma necessidade de caminharmos de uma posição de impotência em direção ao impossíveI. Ele aproxima impossível do Real, em Lacan. E Real, marca ele, não é resistência, dificuldade, mas … fundamento da criatividade.
 
Amparo-me em Agamben, de novo, quando ele me apresenta a possibilidade de, como analista, na clínica e, na vida, ser “ajudante”, “tradutora”!… Ele explica: “o ajudante é a figura daquele que se perde, ou melhor, da relação com o perdido”.
 
Ajudante é aquele que se sente interessado, disponível para o “ser que vem”, “o ser humano que vem”, “a política que vem”, “a ética que vem”, “a comunidade que vem”.
 
Ajudante, tradutor é aquele que não rechaça. É aquele que abraça.
 
Assim, freudianamente, para sempre, permito-me compartilhar um sonho: o de que as diferenças sejam aceitas como tal, utilizadas como riqueza, patrimônio das humanidades/desumanidades do ser. E que o caminhante tenha caminhos para caminhar.
 
Esta casa, a Edca, é uma casa de amigos. Aqui, as diferenças enriquecem, não roubam.
 
Daí a alegria e desejo de muitos retornos.
 
Freud me ensinou que, às vezes, é necessério um agir de artista que queima os móveis para aquecer o modelo. Às vezes, é preciso cometer pequenos crimes sem comprometer a ética. Por isso, copiei o livro esgotado do Francisco Ortega para marcar esta minha passagem por aqui. Para presentear amigos:
 
Farnesim

Frenesi

Bem-me-quer

Mal-me-quer

Histeria

Beribéri

Psicose

Lou-cura!…
 
A sexualidade vive a despeito dos tempos e costumes, acolhida pelo corpo erógeno, no reino das transferências.
 
E… saúde… bem, saúde, a meu ver, e poder nascer, viver, amar, odiar. Poder engordar, emagrecer. Envelhecer. Poder adoecer.
 
Sem doença não há saúde.
 
Poder, quando chegar a hora, morrer. Porque a gente nao acaba quando morre, mas … morre quando acaba.
 
E… acabar também é preciso para que haja novos re-começos.
 
 
Por Suzana Schmidt Nolasco
 
 

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