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A Transvaloração dos Valores – O Super-Homem*

domingo, 15 setembro , 2013

Leia o artigo inédito do psicanalista Deivy Frajman.

Este texto se trata de perguntarmo-nos e RESPONDER que a forma que o humano tomou em sua modernidade tosca é sua forma final ou o acabamento do niilismo. Em ambos os casos visamos buscar uma política que torne possível um outro presente e um futuro que nos prometa uma outra coisa.

 

“Mas onde desembocam afinal as ondas de tudo que há de grande e sublime no homem? Não há, para essas correntes, um oceano? Seja este oceano: haverá um.”

F. Nietzsche.

 

UMA CRENÇA

 

Para nos interrogarmos acerca da transvaloração dos valores até agora em curso, convém retomarmos alguns conceitos.

O conceito chave para esta interrogação é a Metafísica. Ela pode ser definida como um conhecimento que se pergunta sobre o que existe além do existente.

Embora seja verdade que o termo “metafísica” tenha sido forjado a partir das obras de Aristóteles, não deixa de ser que o verdadeiro pai da metafísica é Platão. Esse “cristão antes de Cristo”, nas palavras de Nietzsche, que dizendo haver, acima do “mundo sensível”, um “mundo inteligível” ou “mundo verdadeiro”, implantou na antiguidade grega as bases do “além do mundo”, o “além do existente” que mais tarde o cristianismo iria aprofundar.

E se o Cristianismo pôde se reconhecer no platonismo, isto é, na Metafísica, é porque ambos retiram seus recursos nas mesmas fontes, ou seja, nos tipos “escravos”, nas subjetividades fracas.

A origem da necessidade do mundo metafísico é o ressentimento contra o real.

Do que precede, a filosofia, a psicologia e a política trágica de Nietzsche necessariamente passam por um projeto da destruição total dos valores da Metafísica ou do platonismo, cuja expressão mais pura é o cristianismo, mesmo que mascarado sob outros disfarces como por exemplo: crença no sujeito, na identidade, num fantasma do real, na Ciência etc.

Seria preciso que o platonismo ou a metafísica ocidental fosse atacada de modo radical, sobre suas posições.

É preciso ressaltar que não se trata de uma inversão dos valores, mas de uma transvaloração. Os críticos (mal intencionados ou ingênuos) de Nietzsche afirmam que sua crítica visa substituir o mundo da “essência” pelo da “aparência”. Erguendo assim uma nova metafísica, só que invertida. Não é nada disso. Abolindo-se a essência, a aparência não toma seu lugar. Ambas desaparecem e o que sobra é o real: o mundo, as coisas, os corpos, sem que se denominem aparência ou dupliquem-se numa essência supraterrestre.

O supraterrestre pode se dar inclusive dentro dos próprios corpos. O real, o mundo, é suficientemente rico, abundante para se encantar a qualquer espectador destituído de ressentimento. A triste história do homem do ocidente é que ele foi capaz de inventar um outro mundo, uma metafísica, um mundo inteligível para suportar a existência. A que ponto chegou-se de ódio à vida!

 

O FANTASMA DE PLATÃO

 

Platão dividia, como se sabe, o mundo em dois:

· O mundo sensível: campo da mudança do fluxo, da ilusão e do erro;

· O mundo inteligível: concebido como o domínio das essências, das Idéias.

É este mundo inteligível que constituía para ele a realidade autêntica. Este mundo sozinho, enquanto substrato do conhecimento, é o “mundo-verdade”. O Mundo da Perfeição.

No mundo sensível o que existe são “cópias”, “sombras” do mundo inteligível.

Por exemplo, uma mesa só existe enquanto mesa-verdade ou mesa-perfeita ou essência da mesa enquanto existente no mundo inteligível. No mundo sensível o que há é sempre uma cópia desta mesa, por melhor que seja esta cópia, ela nunca será a essência, a verdadeira mesa. Será sempre uma cópia, uma mesa degradada.

Essa divisão do mundo em “sensível” ou “aparente” e em “real” ou “verdadeiro” não é específico de Platão. Qualquer idéia vitoriosa que surja no mundo dos homens, acaba por se espalhar e tentar se impor, através de deslocamentos e proliferações.

Por isso tal idéia de Platão vai encontrar eco no Cristianismo, e daí se espalhar. Pois senão vejamos: no Cristianismo além deste mundo que é considerado um mundo de aparência, de sofrimento, existe um outro mundo, um mundo de redenção, de perfeição. Um outro reino verdadeiro onde se encontrará a verdade.

Afirmar a existência desse “outro mundo” não é por acaso. O encontro destas duas filosofias servem para um propósito. A duplicação do mundo em “mundo sensível”, concebido como “aparente” e “ilusório” e um mundo “real” ou “verdadeiro”, é apenas um sintoma, um sinal da decadência, o indício de que a vontade de nada vence a vontade de vida. O propósito é então espalhar esta vontade. Tal concepção só pode provir das subjetividades tristes, ressentidas, para se redimirem dos sofrimentos que lhes causa a realidade. Para isso inventam um outro mundo onde suas aspirações podem ser realizadas.

O “outro mundo”, tal como aparece efetivamente na História, por quais atributos é caracterizado? Pelas marcas do preconceito filosófico, religioso e moral. O outro mundo então passa a ser o motor universal da filosofia, da moral, da psicologia. Embora cada campo do conhecimento trate as “soluções” de um modo específico, o motor continua a ser o mesmo. A vontade de nada e a duplicação do mundo criam os sintomas específicos; mas afinal de contas, trata-se do mesmo problema universalizado. Exemplo: Culpa é um afeto pertencente à Psicologia, à Religião, à Filosofia, à Moral, ao Direito e à Civilização.

Este único exemplo de afeto foi capaz de criar uma imensa rede de saberes num nível macro e micro através da individuação.

Todo o saber então é um sintoma em proliferação. Não é, como queria Freud, uma sublimação do instinto, mas sim sua doença, seu sintoma.

É apenas quando abolido esse “outro mundo” que pode advir o grande “Sim”, a afirmação deste mundo onde estamos que é o mundo da vontade de potência. Ao mesmo tempo é a Terra que é revalorizada. Pois até agora ela tem sido desqualificada em benefício do “além”. A Terra é o sentido. Por isto, os índios, por exemplo, têm uma clara noção do real valor da terra. Não tendo sido contaminados por anseios supraterrestres e nem se ressentido com a vida, encaram a terra como viva e como força. Como uma dádiva. Sabem do pertencimento do corpo à terra e vice-versa. Não estão duplicados e interiorizados num triste imaginário. Não é por acaso que o Ocidente executou um verdadeiro extermínio aos índios, seja fisicamente, seja catequizando-os (o mesmo Poder usando outros dispositivos como diria Foucault).

“O meu Eu ensinou-me um novo orgulho que eu transmito aos homens: não ocultar a cabeça nas nuvens celestes, mas tê-la descoberta; sustentar erguida uma cabeça terrestre que creia no sentido da terra.”[1]

 

 

O ALÉM MUNDO DO SUJEITO E DA LINGUAGEM

 

A metafísica projeta inúmeras ficções como um substrato para o ato de pensar. Tal ficção, como a que existe um sujeito atrás do pensar enquanto ato, provém da rotina gramatical, todo verbo ativo precisa de um sujeito, que se acredita que há algo “atrás” – vale dizer, um agente: espírito, alma – análogo ao ato considerado como causa de efeitos físicos.

O Cogito de Descartes[2] é inteiramente comandado por esta rotina gramatical. O Eu, sujeito do Cogitare, não é mais do que o sujeito gramatical mas posto como um “ser” ou uma substância. Este “eu” substancializado é que vai dar origem à consciência.

A consciência, como vimos, é um produto tardio da interiorização dos instintos que se tornaram “inúteis” no Homem Reativo. A consciência é apenas um produto da pressão de comunicação que os Homens sentiram.

É o que Nietzsche ilustra com esta passagem de A Gaia Ciência quando escreve:

“Posso passar à suposição de que a consciência em geral só se desenvolve sob a pressão da necessidade de comunicação (…) Consciência é propriamente apenas uma rede de ligação entre homem e homem. (…) Que nossas ações, pensamentos, sentimentos, e mesmo movimentos nos cheguem à consciência – pelo menos uma parte deles -, é a conseqüência de um terrível, de um longo ‘é preciso’, reinando sobre o homem (…) O homem, como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não sabe disso; o pensamento que se torna consciente é apenas a mínima parte dele, e nós dizemos: a parte mais superficial, a parte pior: – pois somente esse pensamento consciente ocorre em palavras, isto é, em signos de comunicação; (…) Dito concisamente, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência (…) vão de mãos dadas. (…) A consciência não faz parte propriamente da existência individual do homem mas antes daquilo que nele é da natureza de comunidade e de rebanho. (…) Que nosso pensamento mesmo, pelo caráter da consciência – pelo ‘gênio da espécie’ que nele comanda -, é constantemente como que majorizado e retraduzido para a perspectiva do rebanho.”[3]

O sujeito como causa do pensamento é então uma ficção da gramática[4]. E a consciência é antes da ordem social e nunca como quer a Psicanálise, uma estrutura interna. A não ser que vejamos a consciência, no discurso freudiano, como a introjeção de uma categoria civilizatória.

Na perspectiva de Nietzsche, o famoso aforisma de Lacan, sobre o Inconsciente estar estruturado como uma linguagem, seria retraduzido na Psicologia de Nietzsche como sendo a Consciência é que está estruturada como uma linguagem. E mais, tal linguagem é antes signo do rebanho. Do consenso. A fala louca é o exemplo que rompe e que mostra como a linguagem é uma codificação imposta e compartilhada pelo rebanho. Por esta razão a fala louca é desqualificada. Porque ela não serve para a comunicação. Não serve à ordem da necessidade.

Jean-Luc Godard diz que a regra quer sempre matar a exceção. Há sempre operadores do fora mostrando-nos de que há uma outra coisa, e não um outro mundo. A diferença entre outra coisa e outro mundo é o de que o primeiro é concreto, existente, real e o segundo é inexistente, fantasmagórico. Ou seja existem os loucos, os índios, os animais. Já as “Idéias”, as “Essências”, as “Verdades”…

 

 

O ETERNO RETORNO DOS VALORES ARISTOCRÁTICOS

 

Com a abolição do “outro mundo”, o mundo da “Metafísica” é o mundo de mudanças da transformação; o mundo do devir que retorna. O único que com efeito está em conformidade com a vida. Este mundo então reencontra sua inocência, sua beleza e sua singularidade e o homem que enterrava sua cabeça no “além” ou a abaixava neste mundo, desperta, retomando o contato com a realidade que lhe devolve sua coragem, sua fisionomia, seu corpo, seus instintos; acabando com o desprezo por si mesmo e pelo mundo.

Surge então uma nova ética, mas para que tal afirmação se dê, é necessário que o Homem se posicione radicalmente contra tudo que até agora foi afirmado.

Para isso é necessário um novo caráter, uma força que veja que além de necessária a nova afirmação, ela deve ser desejada.

O que se encontra agora possível é a afirmação dionisíaca do mundo e da existência. É possível porque todas as condições do mundo moderno estão com o terreno preparado para tal transvaloração. A vida se esgota; o cansaço e o niilismo caminham com passos gigantescos. A crise é colossal, tanto no chamado “primeiro mundo” como no “terceiro mundo”.

É preciso substituir o “homem antigo”, o homem da moral cristã que menosprezava o corpo e que podia ter uma alma bela num corpo doente, por um “homem novo” com corpo são, com novos valores.

É necessário começar a cultura no lugar exato: no corpo; corpo não como representação mas como matéria, como uma imensa possibilidade de diferenças e singularidades. Uma nova fisiologia trará um novo espírito.

A pergunta de Espinoza sobre o corpo torna-se mais uma vez o fio condutor: “O que pode um corpo?” Nós só o conhecemos como dotado de funções reativas. Os valores aristocráticos trazem as forças ativas dos corpos, das existências em sua plenitude.

Mas qual é a política desta transvaloração dos valores ou o eterno retorno dos tipos aristocratas?

A resposta parece ser que a mudança de valores é a mudança dos criadores.

Somente os que estão à deriva no mundo dos homens é que podem formar uma espécie de aliança ou conspiração silenciosa para uma obra de feitiçaria: o surgimento do Super-Homem.

 

* Observação do autor: Optamos por traduzir aqui super-homem embora saibamos que o termo que Nietzsche usa é “übermensch”, ou seja, além-homem. Mas o termo super-homem têm sido utilizado por diversos comentadores consagrados de sua obra e por ser o termo mais adequado ao nosso idioma, visto além-homem ou sobre humano não dar conta da semântica de nossa língua portuguesa. O termo super-homem é além disso, um conceito que possibilitou a irradiação de seu pensamento do inumano.

 

[1] NIETZSCHE, Assim Falou Zaratustra – “Dos crentes em além mundos”, p. 24.

[2] Cogito, Ergo Sum (Penso, logo existo).

[3] NIETZSCHE, A Gaia Ciência, Aforismo 354, p.172.

[4] Nietzsche define a gramática neste aforisma como “metafísica para o povo” (povo visto não como classe social mas tipologia do rebanho).

 

 

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