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Do paradoxo psíquico na Psicanálise – por Chaim Samuel Katz

domingo, 22 novembro , 2015

Pensarei, inicialmente, em torno de um pequeno e importante ensaio de Freud, o primeiro do conjunto de três ensaios, chamado de Contribuições à Psicologia da vida amorosa.(1)

 

 

Desde sua conceituação, já estabelecida na época, da organização do desejo e do amor, Freud nos fala acerca das quatro condições da produção ou emergência do ciúme. Claramente, a visão teórica está determinada por suas construções de então. O que significa isto? É que sabemos que ele sempre investi(go)u para além da teoria, na medida em que se deixou surpreender pelo que a clínica oferecia, produzindo outro modo de teorizar, uma teoria distinta do equilíbrio e da homogeneidade.

 

Mas não se trata de pensar diretamente, neste escrito em homenagem a Emmanuel Carneiro Leão, a caminho dos seus merecidos 120 anos de idade, as relações entre o que se chama “teoria” e o que se denomina “prática”, nas suas determinações mútuas. Quero apenas afirmar que, na Psicanálise, produzir uma isonomia ou isomorfia entre os campos teórico e prático é restringi-la, devo mesmo dizer, adoecê-la no que ela tem de mais específico, dando-lhe um estatuto clínico no modo psiquiátrico tradicional, obrigando-a a regularidades que inexistem na produção das subjetividades.

 

Para isto, devo apenas indicar o que já elaborei melhor em outra ocasião. Aquilo que chamei de “dimensão do presente”(2), ou seja, a consideração permanente daquilo que se apresenta, que emerge enquanto manifestação do processo psíquico que se examina, não se restringindo apenas às re-presentações, tanto do “paciente” como da teoria sobre o psiquismo. Consideramos sempre as dores e os prazeres da narrativa, não as excluindo em nome de uma teoria platonizante, que se rege de acordo com uma verdade teórica essencialista. A isto denomino de “Psicanálise em movimento”, um processo e não apenas uma definição prévia de estruturas.(3)

 

É preciso lembrar que a prática psicanalítica se constitui essencialmente na transferência, onde se transformam as condições do analisando, mas também as da Psicanálise e do próprio psicanalista. Não há transferência prévia e acabada, eis o que se sabe desde a obra de Férenczi, o que obriga a estabelecer um estatuto de “em movimento”, também para a teoria.

 

Apenas como indicação, haveria que indagar se este texto é uma inovação freudiana, ou seja, se leva a marca de sua criatividade, onde se escuta sempre a forte incidência da clínica; ou se reproduz estritamente algumas articulações teóricas desta época. Pois foi sempre importante, para o vienense, examinar teoricamente outros campos do conhecimento, para ver o que a Psicanálise sabe e pode. E ele o faz perguntando a respeito de amor e ciúme, desde suas elaborações teóricas.

 

Para a psicanálise, o amor só se desenha, só se delineia desde uma teoria acerca do Desejo (Wunsch). A criança masculina (é disto que trata Freud no texto que examino) nasce numa família unitária e única, que será o cerne de seus desdobramentos psíquicos. O menino tem, inicialmente, uma relação onipotente com sua mãe, onde ignora qualquer outro terceiro. Faz-se sexualmente, no modo sexual freudiano (aquilo que os psicólogos, equivocadamente, chamam de “desenvolvimento”) passando pelo prazer assumido pelas sensações e sentidos corporais.(4) O bebê-menino atravessa e é atravessado por sensações e blocos de sensações e estas encontram sua melhor expressão numa organização através das várias fases do regime corporal: oral, anal e genital. Porém, é só na última destas fases (a genital) que ele atinge o que Freud chamou (posteriormente) de estádio fálico. Tal estádio fálico é simultaneamente corporal e incorporal, exatamente o que organizará a construção do complexo nuclear do psiquismo (Kernkomplex, dizia Freud, inicialmente). Seria somente através de seus processos que se dariam os investimentos daquilo que ele entendeu como Amor.

 

Qualquer amor, todas as relações amorosas passam pelo modo de articulação psíquica que junge o menino àquilo que Freud chamou de complexo de Édipo. Todos os amores seriam organizados, baseados, apoiados (Anlehnung) nesta primeira organização das pulsões. Portanto, ao falar de um tipo especial de investimentos e escolha objetal masculina, Freud se remeterá à organização das pulsões sob forma edípica, que seria a unidade que sustenta a emergência do Amor. Ou seja, o amor pode aparecer e se manifestar, sob a condição de se apoiar no modo único de organização pulsional, o complexo de Édipo.

 

Recordemos rapidamente as quatro condições que Freud propõe para sua indagação a respeito do psiquismo do “tipo”. (6)

 

1ª- O sujeito masculino escolhe, como seu objeto amoroso, uma mulher já comprometida institucionalmente com outro homem. Examinando-se bem o escrito, vê-se que Freud fala que a mulher é oficialmente de outrem, ou seja, o compromisso dessa mulher é com o matrimônio, com um homem que é seu marido. Tal investimento por parte dos sujeitos deste “tipo” tem várias consequências. Por um lado deixa o sujeito sem se “comprometer” amorosamente (amor, para Freud do texto, eqüivale a ter um compromisso de longa duração com a parceira, ou seja, o casamento); por outro, leva à satisfação dos impulsos agonísticos e hostis contra o homem a quem se rouba. Este outro é o “terceiro prejudicado”; 2ª- uma mulher “pura” não exerce atração para ele, que se desvia para mulheres levianas, procura um amor de prostituta, Diernenliebe, onde sempre se dá um ménage à trois. Nesta série, os acontecimentos do investir amoroso são, “cada qual uma réplica exata das outras”; 3ª- tais apaixonamentos ou enamoramentos (Verliebtheiten) por mulheres levianas constituem uma série análoga. Freud irá, nesta época em que adota o conceito psiquiátrico de complexo (criado pelo neurologista e psiquiatra Ziehen, mas que Freud aprendeu através de Jung), sempre à procura da constituição de uma tipologia; 4ª- o indivíduo deste “tipo” experimenta a redenção da mulher amada, tentando recuperá-la de sua degradação. Mas, diz o mestre, esta escolha objetal “tem a mesma origem da vida amorosa dos normais” (p. 70).

 

Postulando a existência da unidade dos psiquismos, ele pensa que, tal como outros, ditos neuróticos ou normais, esses sujeitos do “tipo” são dominados, inscritos pelo complexo de Édipo.

 

Enquanto crianças, tais indivíduos sabem, de algum modo, como qualquer criança, pela “ilustração sexual”, que seus pais têm relações sexuais, mas não podem aceitar este fato, que destrói a autoridade dos adultos. Nesta mesma época, como “corolário da ilustração sexual”, o menino descobre as prostitutas, profissionais do ato sexual, que são desprezadas por isto.

 

Na medida em que um indivíduo sabe que a mãe realiza atos sexuais, através destes atos identifica-a com as prostitutas. Assim, começa a desejar a mãe e a odiar o pai, rival que o perturba na realização de seus desejos. Se tais desejos permanecem, o sujeito experimenta esgotá-los através da masturbação, que se desenrola sempre em torno da atividade sexual da mãe. E seus impulsos mesclam desejos e vingança.

 

Contudo, o que não discuto aqui, há uma questão não resolvida na postulação freudiana, que identifica a mãe com a mulher, enquanto figuras simétricas. Tal postulação do drama freudiano organiza a circularidade do complexo edípico e obriga à unidade e unitariedade da questão psíquica.

 

O primeiro objeto amoroso se constitui na constelação materna (p. 70). E, da parte destes indivíduos, dá-se uma fixação nesta mütterlichen Konstellation, onde mãe e pai são vivenciados ambivalentemente. Resultando daí a permanente insatisfação com a escolha amorosa em torno da mãe, enquanto o pai emerge como o adversário a ser visado e, posteriormente, reparado.

 

Por isto, para Freud, a masturbação posterior ajuda na fixação dessas fantasias, no resultado ambivalente do pensamento e dos encontros objetais. Por exemplo, querer retribuir à mãe o fato dela o ter gerado se traduz numa fantasia de ter com ela um filho, inteiramente semelhante a si mesmo. Com isto o indivíduo se identifica com seu próprio pai, desejando ser pai de si mesmo.

 

Esta é a organização psíquica que levaria tais sujeitos à busca permanentemente insatisfeita de múltiplas mulheres, na medida em que a mãe é inacessível e acessível, simultaneamente, já que o pai, no regime de paternidade e masculinidade, é fraco, não servindo como barreira aos investimentos incestuosos do filho.

 

No regime afetivo, de onde se origina esta angústia que o indivíduo quer dominar? Neste escrito, Freud segue os ensinamentos de Otto Rank, acerca do trauma do nascimento enquanto modelo de todos os traumas e da formação mais importante da angústia: “o nascimento é o perigo de vida mais primitivo e do mesmo modo o modelo dos [perigos] posteriores nos quais encontramos angústia, e a vivência do nascimento nos lega provavelmente a expressão afetiva do que chamamos de angústia” (p. 76, meu grifo). Assim, o tipo descrito no ensaio sofre de angústia, que teria dupla origem: representacionalmente, na má resolução do complexo de Édipo e afetivamente, pelo nascimento traumático.

 

Freud principia o ensaio dizendo que não se deve deixar unicamente aos poetas pensar sobre o caso, pois, apesar de possuírem certas condições de sensibilidade para refletir sobre o assunto, “eles estão ligados à condição de alcançar prazer intelectual e estético, assim como certas impressões ativas” (meu grifo) e por isto só possuem um conhecimento parcial da “matéria da realidade”. É claro que isto é válido também para os que pensam à moda dos poetas, esteticamente. Enquanto “a Ciência, die Wissenschaft [psicanalítica] é precisamente a mais completa separação do princípio de prazer, de que nossa atividade psíquica é capaz” (pp. 66/67), não se deixando levar pela estética.(7)

 

Assim se coloca uma questão importante. Pois somente a Psicanálise teria capacidade de explicar tais casos num regime “total”, já que ela não aceita a incidência do princípio de prazer nas suas construções; ao mesmo tempo em que Freud diz dos poetas que eles procuram alcançar o prazer estético, o que não aconteceria com os psicanalistas. Por isto a Psicanálise terá que possuir instrumentos integradores maiores -que permitissem saber sem prazer!- o que Freud nomeia neste escrito, pela primeira vez, como complexo de Édipo.

 

Neste regime edípico da Psicanálise, abandona-se simultaneamente o que seria uma condição estética do “tipo”. Ou seja, se o Wissenschaftler deve se afastar de seu próprio sentido estético para alcançar o “latente” organizador de tais homens, devemos nos perguntar se o estético se dá apenas no regime de alguma “percepção” estética, que dependesse das descrições subjetivas para ser pensado. Pois aprendemos que se deve fundamentar psicanaliticamente, nos regimes das pulsões e desejos, de produção inconsciente e suas efetividades (Wirklichkeiten, palavra sempre freudiana), o estatuto do estético e da Estética. Mas sabemos que os sujeitos só constróem teorias no regime do que Freud chamou de Wunsch: todo teórico é esteta, queira-o ou não.

 

Por relação ao texto que apontei, ainda resta a questão se o estético do “tipo” se reduz à articulação das referências objetais, descritas pelas quatro condições freudianas.

 

De saída, isto impõe uma dificuldade problematizadora, pois a própria teoria que mostrou que as regras do saber não se reduzem jamais aos seus elementos lógicos -estes se suportam pulsionalmente e desejantemente, segundo o conceito freudiano de apoio, Anlehnung- não tem como excluir de suas construções as pulsões estéticas e seu estatuto específico de elaboração.

 

O fato da Psicanálise, no seu regime teórico, ter acesso aos objetos do conhecimento através da linguagem, não implica em desconsiderar os elementos não ou extra lingüísticos, as pulsões, que se fazem e incidem nas realidades dos indivíduos e processos psíquicos, pulsões que nos constituem subjetivamente e assubjetivamente. Como exemplo do que penso no campo freudiano, não se pode ignorar o prazer obtido pelos sujeitos do “tipo especial de escolha objetal” nos seus investimentos amorosos “equivocados”.

 

Devem-se considerar também a positividade e o prazer que as conquistas breves e insistentes lhes trazem, em regimes temporais descontínuos ou em fluxos, o deslocamento veloz nas escolhas objetais e a enorme labilidade das finalidades (Zieln) psíquicas. Cabe à Psicanálise estabelecer também seu estatuto psíquico positivo, que é sempre outro destino das pulsões, pois tais “tipos” estão em vigor na atualidade nas classes médias do mundo ocidental, existem (bem ou mal) efetivamente; e não apenas afirmar sua negatividade diante da “positividade absoluta e única” de uma Falta, ou seja, a postulação de que o “tipo” seria um defeito, alguma de-formação ou mal acabamento por relação ao complexo de Édipo.(8)

 

Há que se indagar também, no regime metapsicológico, se os “objetos” de tais tipos são meros alvos passivos de suas ações ou se constituem também sua organização desejante. Desenvolvi, numa conferência que espero publicar algum dia, que Don Giovanni, tal como libretado e musicado por Lorenzo da Ponte e Mozart, só existe enquanto é diferente de um eu instancial. Há Don Giovanni porque existem Donna Anna e Donna Elvira, seu valet Leporello, Don Ottavio, o Comendador, Zerlina e Masetto. Il Dissoluto Punito é um eu coletivo e complexo, a atender, no seu regime psíquico específico, os desejos, sonhos e fantasias de muitos, do próprio Don Giovanni e seus inclusive, de você que me lê (além dos meus, felizmente).

 

Freud, neste momento de sua obra, recusando absolutamente algo não-edípico, é levado à postulação de um aparelho psíquico único e equilibrado, com tempo unitário, a posteriori (nachträglich), onde o estético deverá se inscrever. Ou seja, o estético seria apenas “alguma coisa” que deve ser elaborada no interior de uma teoria previamente existente do Simbólico, onde reina uma Linguagem edípica, única. É isto que ele experimenta com o ciúme, neste texto que acompanhamos.

 

Da perspectiva das representações, que é o que Freud mais enfatiza e que marca sua obra desta época, uma tal tipologia de um “tipo especial de escolha objetal” só pode ser lida adequadamente no modo de uma Aufbau, uma construção. O que trará certas consequências, que posso indicar.

 

Por exemplo, o amor aparece apenas desde a gênese das relações precoces do filho com sua mãe e é a constelação materna quem indicará as futuras escolhas objetais. Assim, inconscientemente, tal Wissenschaft terá uma posição normativa acerca do amor, como resultado normal-normativo de sua construção (o que, conforme disse no início, a teoria-clínica freudiana psicanaliticamente elaborada mostra diferencialmente). Há uma correspondência isomórfica entre a constituição psíquica do humano e o saber que constrói o humano, quando um psicanalista –neste caso, o melhor deles– estabelece uma estrutura que procura as condições que seriam únicas para a constituição do psíquico.

 

Algo que viria desde uma infância cronológica, experimentado numa idade precoce e que se reproduziria incessantemente em todas as escolhas objetais do sujeito. Logo, o amor se entenderá apenas enquanto plenitude, desde as vicissitudes impostas edipicamente. Se só há Um amor, cuja organização latente remete sempre à constelação materna, os sentidos, corporais e incorporais, que designam os (futuros) sujeitos para os outros, devem obedecer à sua necessidade.

 

Neste caso, o amor se oporá, sempre, à paixão. O amor normal, esperado e idealizado, seria uma gênese, com fonte única, desde um afeto unitário de desejar a mãe e odiar o pai (e suas possíveis variações) numa temporalidade longa e contínua, fundada no tempo recorrente do a posteriori. Os chamados “normais” retornariam sempre, de modo adequado, ao ultrapassamento ou vivência adequada da ambivalência, através da não-fixação às suas origens. Ou seja, saberiam colocar em jogo as situações postas pelo seu apegamento incestuosamente desejante à mãe e reparariam sua relação odiosa e mortífera com o pai.

 

Enquanto no caso do “tipo” descrito, sua temporalidade é outra. Através da própria construção freudiana, sabe-se que seu tempo é rápido, incisivo, descontínuo e não-recorrente, tempo do inesperado e das surpresas. Se o tempo a posteriori se produz desde um ponto inicial onde ainda não existe significação sexual, ele só se instala quando, em algum momento só-depois (como traduz M. D. Magno), atribui uma significação sexual que permite o repercorrimento de tal cadeia temporal e representacional. Mais ainda, para a Psicanálise desta época, qualquer temporalidade psíquica só nasceria assim, entre dois pontos.

 

No caso do “tipo” elaborado por nosso mestre, o indivíduo reclamaria permanentemente um retorno à infância vivida edipicamente. Mas já não se trata mais de uma temporalidade adequadamente assujeitada à Nachträglichkeit, pois é, de algum modo, inalcançável pela não perlaboração dos sujeitos “tipo” desde o complexo edípico.

 

Contudo, como o “tipo”, do mesmo modo que os “normais”, é destinado edipicamente, deve se haver necessariamente, de qualquer modo, com o complexo de Édipo, experimentará elaborar inconscientemente sua dimensão amorosa através do que Freud chama de Verliebtheit, um apaixonamento ativo e de deslocamento intenso, mas fora dos parâmetros normais da amorosidade (fora das determinações e expectativas edípicas). No caso estudado, paixão por mulheres diversas ou mulheres que já seriam de outro.

 

Paradoxalmente, Freud entende tal Verliebtheit enquanto Leidenschaft, apaixonamento passivo, que se apossa simbolicamente dos indivíduos, assujeitando-os. Tratar-se-ia de uma fixação indevida na mãe confundida com a “ilustração sexual acerca das prostitutas” e elaborada num tempo longe do equilíbrio edípico; este tempo, gerido pela aposterioridade, é o que também deveria ser reelaborado na análise, a fim de “desmontar” os sintomas. Sintomas que só desapareceriam com uma temporalidade posta em equilíbrio, onde o polo infantil-cronológico dos fatos indicaria apenas como a Struktur se fez história. Assim, os investimentos estéticos dos homens que fazem esta escolha objetal são sintomais, destinados à dispersão amorosa com as mulheres e à busca do enfrentamento e a redenção com os homens.

 

Se, neste momento de sua teorização, para Freud o afeto único da angústia deriva do nascimento e de sua causalidade afetiva modelar (cf. Rank), as queixas, as demandas do analisando se examinarão apenas como sofrimento de insatisfação, sofrimento este posto na Psicanálise como sintoma psíquico a ser examinado e modificado no modo da construção teórica. Provavelmente alguns analisandos do “tipo” vão a Freud -ou a qualquer psicanalista- para se queixar exatamente disto. Mas, o amor dos “normais” é sem sofrer? Na verdade, responderia Freud, seu sofrimento é diferente, não insiste num quase-mesmo locus e, não se faz enquanto tipo.

 

Teoricamente, o “tipo” é adoecido, pois não sabe amar uma mulher, esta mulher ideal única que reproduziria a mãe, mulher que não pertenceu a outros, que se recusou também ao próprio filho enquanto mulher e que é ou foi exclusiva e fiel ao pai. O “tipo” se criou porque este mesmo pai é fraco e permitiu o acesso precoce da corrente sexual do menino na direção da mãe. Mas é preciso aprender que, ao mesmo tempo, Freud pensa os relacionamentos que postula enquanto normais através do imaginário do Romantismo, com suas regras e normas fixas, pois só elas apontariam para a possibilidade de um encontro harmonioso entre natureza e cultura, a fim de restabelecer um lugar equilibrado do humano. A família nuclear, hoje minoritária nos grupos ocidentais dominantes, onde um melhor equilíbrio entre cultura e natureza poderia atingir o topos mais lógico da Humanidade melhor. Família original onde se subsumiriam o prazer do ato sexual com a necessária reprodução da espécie humana: este é o Ziel invisível que dirige e orienta o escrito (a causalidade estruturante ausente, diriam os estruturalistas).

 

Se a sexualidade se põe como questão amorosa no regime unitário que vem desde tal construção, falta ao “tipo” a seriedade de se reduzir ao modelo único idealizado. Unidade dada desde um sistema de representações estabelecido em torno da família nuclear e cuja garantia afetiva vem desde muito antes, pelo acontecimento do nascer numa família normativa. Por isto o “tipo” sofreria, porque está apaixonado; apaixonou-se para co-responder ao chamado amoroso do complexo de Édipo e às questões amorosas postas desde sempre no seu regime.

 

Assim se anuncia, neste momento do pensar de Freud, o que chamo de “dramatização da Tragédia”. O trágico é posto no regime do Drama e sua circularidade. O que restaria aos humanos senão escutar-reproduzir o que, presumivelmente, os constituiria de modo normativo, aquilo que percorrem no interior de uma temporalidade equilibrada, lugar unitário onde o amor único se faz e se anuncia? Os meandros de tais caminhos seriam apenas atualizações de uma construção psíquica dada desde e para sempre, onde o vir-a-ser estaria determinado. Devir teoricamente pré-fixado -e normatizado, valorado existencialmente- devir-devedor do Único que o obriga e convoca: o complexo de Édipo. Mas não mais devir e sim vir-a-ser.

 

Neste momento da obra freudiana, apresenta-se uma continuidade entre pulsão e desejo, que se aproxima de um certo Hegel. Só se garantiriam a universalidade e a pertinência ao Espírito Absoluto desde a inclusão dos casos particulares num Universal. Universal este nomeado como “complexo de Édipo” e que enquadra o que escapa de sua abrangência como desvio psicopatológico.

 

Mas, pensemos. Imediaticidade das paixões, troca excessiva e rápida dos objetos amorosos, disputa e enfrentamento agonístico de quem é mais desejável pela amada que se quer, impossibilidade de uma união conjugal permanente: tudo isto é hoje a norma e os desejos “normais” dos grupos mais civilizados, mais dominantes e modeladores da cultura e dos meios de comunicação de massa, que freqüentam e alimentam o saber das classes médias mais poderosas e formadoras de opinião pública. Tipo narcísico, dirão alguns. Talvez.

 

Os indivíduos contemporâneos, mulheres e homens, não se assujeitam do mesmo modo como o faziam na época do escrito freudiano, aprendemo-lo com vários estudiosos. Sabemos que o amor tem modos múltiplos de emergência pulsional, mesmo quando algum deles pareça a dominante única. Sofrem eles com isto? Todos? Ou seu desejo aumenta pelo parceiro que mais circulou no seu meio, parceira (Freud pensa o tipo apenas enquanto masculino) que teve trocas mais intensas e publicadas com rivais? Procuram eles psicanalistas para curá-los ou gozam com isto? Quem são tais sujeitos, que gozariam nas suas relações sexuais imaginárias e que, simultaneamente, são os construtores simbólicos do prazer socialmente reconhecido.(9)

 

Deve-se pelo menos repensar o significado da eliminação das “contingências” (!?) estéticas, das experiências do sentido e dos sensíveis para elaborar o inconsciente. Postulação de uma grande Razão, Outro prévio e único, com seu Amor unitário e afirmação inclusiva desde Uma única gênese. Neste grande drama, recusa da afirmação diferenciada do sentido e da estética, da reprodução e dos desdobramentos dramáticos e negação do trágico enquanto afirmação. Por conseguinte, patologização do paradoxo e do trágico.

 

Como tenho mostrado aos meus colegas, tratava-se na época de caracterizar a infância desde seu regime cronológico-factual, algo que se faz numa memória que só olha para trás, e cuja recordação ou rememoração só fariam recircular os fatos presumivelmente únicos. Neste momento da elaboração freudiana, que não se confunde com seus muitos outros pensamentares e construções, o sujeito se caracteriza como um “eu” unitário, instância que procura unificar e totalizar os múltiplos investimentos libidinais, voltado para domesticar suas pulsões e realizar seus ideais, o que Freud chamará posteriormente de “ideais do eu”.

 

Mas, prestemos atenção no modo como Freud fala da impossibilidade amorosa do “tipo”. Porque tal sujeito não sabe reproduzir adequadamente a organização inconsciente, não se relaciona bem com os fatos do pequeno Édipo que ele já é: eis onde estaria seu sofrer. “Tipo” doente, porque procura-encontra a felicidade unicamente nos seus investimentos múltiplos e descontínuos, pois só as paixões e o ciúme o incendeiam e lhe prometem acontecimentos importantes. Homem de escolha de objeto desequilibrada, que nunca sabe onde está seu verdadeiro objeto amoroso, nem mesmo conhece o objeto que deve ser amado, já que não se teria elaborado adequadamente desde seus fatos infantis. Na verdade, não conhecendo o Um, sofre e perambula numa temporalidade descontinuada.

 

O amor do “tipo de escolha objetal especial” aparece como reação patológica, posto no regime do apaixonamento passivo. Contudo, na teoria não se elabora o amor afirmativamente, o que a subjetividade parcial realiza, mas um ideal do amor, que viria desde o modelo imposto pelos pais (por certos pais), que tem uma origem psíquica, desde um sujeito que deve ser “completado”.

 

Mais ainda, o que tem sido esquecido: elaborando-se um amor único, equilibrado e contínuo, ele só pode ser sedentário, proibido de navegar pelos clamores e imediaticidades da vida, sob pena de ser considerado doente. Obrigado às normas do Drama, que intensifica personagens e situações, mas que os teoriza equilibradamente.

 

Pergunto, em bom brasileiro: onde está o bode? Num Simpósio da Formação Freudiana, ainda não publicado, perguntava-se: “Onde está o ‘bode’ na psicanálise, na arte, na vida?” Dizemos, entre nós, de um amor dolorido e apaixonado, que “deu um bode” ou “estar bodeado”. Parece que desde a posta em regularidade da tragédia por Aristóteles, esquecemos, como lembrou a palestrante, “as experiências de êxtase, de theolepsia, de enthousiasmos ou de pânico que o olhar clínico moderno consideraria como momentos de descompensação, uma vez que nós perdemos de vista o lugar que essas experiências ocupavam no imaginário dos antigos. No contexto ritual, sabe-se da relação vaga e diluída da tragédia, de um lado, com os ditirambos em honra de Dionísio, do outro, com os cantos e as procissões fálicos, os cantos e as danças dos bodes ou em honra do bode”, (10) como lembrava o próprio Aristóteles na sua Poética.

 

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Uma das marcas do ensaio sobre o “tipo” é a negativização de sentimentos que horrorizam e surpreendem, escapam das normas e expectativas culturais e (especialmente) psíquicas. Contudo, tais afetos constituem os sujeitos, apresentam-se e se impõem, afirmativamente.

 

Num ensaio posterior, Freud dirá que “só raramente o psicanalista possui o impulso para as investigações estéticas, mesmo quando não se entende a Estética simplesmente como a teoria do Belo, mas como teoria das qualidades do nosso sentir”. (11)

 

O que Freud se pergunta é porque a Estética se dedica apenas ao estudo do Belo, ignorando o assustador, os “sentimentos de natureza do horror e de aflição”. Certamente que na Modernidade tais teses já se encontravam bem elaboradas, por exemplo, em Kant, acerca da questão do sublime, baseadas, ao menos inicialmente, no pensador irlandês Burke.(12)

 

Contudo, interessa realmente é que no esplêndido ensaio de Freud aprendemos que somos infamiliares de nós mesmos, sofremos permanentemente de Unheimlichkeit; que somos indomesticáveis no nosso lar (d o m o z , a moradia, o abrigo, (13) o que inclui corporais e incorporais).

 

Para Freud, o humano psíquico (o que se denomina atualmente de sujeito) só se faz quando sofre um processo de recalque. Mas este recalque, fundamental para conformar o “eu”, é processo que evita a morte e o horror, o dilaceramento e a insistência repetitiva das pulsões, a infinitude e incomensurabilidade psíquicas. Nesta sua leitura, Freud diz que isto explicitaria a origem da castração (que faz/é feita pelo recalque) e o duplo. O duplo que é garantiria contra a morte, a castração que não deixa ver-desejar tudo (sob a ameaça de cegamento, como novos/outros Édipos), que sustenta os sujeitos num locus finito e delimitado pelo nascimento simbólico.

 

Contudo, como já se sabia na teorização freudiana, o que foi recalcado retorna permanentemente; e aprende-se agora, em 1919, que os sujeitos tendem também para um lugar assubjetivado, onde não há ainda recalque. Assim, aquilo que é familiar pode ser também infamiliar, já que o processo de recalcamento ameaça fracassar, quando ele é pulsionalmente insistido. As pulsões são recalcáveis pelas representações ideativas; mas nem todas as pulsões são recalcáveis e, além disto, por sua repetição insistente e infinita, tendem a escapar da ordem do recalque, que as pulsões têm também outra ordem de ser, diferente do desejo. (14) Quando os sentidos, incorporais e corporais, clamam a vida, vem a ameaça. E os sentidos e os sensíveis sempre pró-clamam a vida. Aqui Freud nos introduz nas questões da especificidade das pulsões, nem sempre inscritíveis no complexo de Édipo, e do paradoxo psíquico, que nos remete de modo permanente àquilo que conhecemos através das medidas (rationes) surpreendido pelo que está nas suas bordas, que ainda assim constitui os sujeitos.

 

Somos assim, freudianamente, apresentados ao regime específico da Tragédia.

 

No modo como se elabora o texto de Freud, vai se aprendendo que o duplo não é apenas uma figuração do igual, da imagem de si mesmo ou de uma experiência repetida. Na linha que ele herdou de Rank, ele ainda diria que o duplo é uma garantia contra a morte, desde o assujeitamento aos ancestrais familiares, afirmação simbólica geracional e garantia, de algum modo, perene da finitude.

 

Mas agora, não, ou não apenas. Gostaria de acrescentar a esta linha de pensamento que o infamiliar também busca suas “últimas” fronteiras, longe da postulação de um “eu” (Ich) instancial, enquanto investimento e afirmação do que devém, indicação extensiva das potências possíveis do sujeito, passagem biunívoca entre mortal e imortal, suas com-vivências de organização e disrupção, horror como expressão do impossível. A alegria é também investir e buscar parcialmente, não apenas tais figurações do desconhecido, como suas não-figuras, suas temporalidades extra-recalque, os remetimentos e alusões –o que lhe é fora- ser suas vontades de potência, sofrer expansivamente na procura de objetos outros, pois os investimentos libidinais não cessam e se acrescem complexificadamente. (15)

 

Admitimos, com Freud, investimentos para nos fazer um eu coerente e completo, longo e estável na duração, mas que existem de modo simultâneo e conciliado desarmoniosamente com momentos acontecimentais, onde nos sentimos e nos reconhecemos mais expansivos, produtores de bons encontros, paixões alegres e múltiplas. Por isto, os que procuram eliminar suas paixões também fracassam diante do duplo que os constitui. Pois somos chamados por algo que já somos pulsionalmente e é por isto que não conseguiremos jamais convivência harmoniosa, bela e feliz. Na elaboração do infamiliar encontramos os afetos das vivências indizíveis, que se recusam à representação e que por isto horrorizam. (16)

 

Neste seu importante e belo escrito, Freud apontou para a convergência entre os regimes diferenciados de continuidade e descontinuidade. Reduzi-los edipicamente é dar-lhes um circuito dramático, intensificá-los em torno de situações e figurações que os fazem elementos de representação e comunicação equilibrados, partes de um sistema homogêneo de troca e circulação. Enquanto na infamiliaridade tais encontros arrebatam e querem se vivenciar, constituir subjetividades; não querem nada comunicar no regime de significação, mas emergir e expressar o presente, fazer sentido.

 

Não se trata de uma restrição, a coartação dos acontecimentos e dos afetos: “procura afirmar (besetz) teu sentido” e “transforma-te numa parte do esquema psíquico que te constitui”. Para o Freud trágico, trata-se de insistir, reconhecer-se no que se é, pois isto não se dá apenas na permanência e recorrência equilibrada do Simbólico. Intensidade contra recorrência, afirmação contra negativo, força/sentido contra significação: contra, sim, mas não no sentido de oposição negativa e sim o que está diante de, não como um par de oposições que devesse ser “resolvido” dialeticamente por alguma síntese finalizante.

 

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Na elaboração anterior de seu pensamento, antes de 1905, o mesmo Freud nos habituou -na maioria dos seus textos- a pensar “o homem” como um processo finalizado de sujeito, alguém que tem um psiquismo circular e equilibrado. Humano constituído unicamente no Simbólico, construção simétrica e regular onde não existem restos nem sobras. Aí os sintomas psíquicos se lêem como constitutivos normais -deslocando e/ou condensando, realizando desejantemente- do aparelho simbólico único e unitário, que não aceita nem permite rupturas ou, menos ainda, caos. Os sintomas se elaborariam como parte regular constitutiva do psiquismo único, sua existência se condicionando apenas por referência ao psiquismo constituído, para não deixá-lo com fraturas.

 

Por exemplo, os sintomas de uma histérica como Dora (17) seriam apenas representações fora de lugar, inadequadas por relação ao sistema normal de significação, sistema totalizador, organizado pelo complexo nuclear. Tratar-se-ia então de tomar tais representações, enquanto fatos de uma história de vida, uma Lebensgeschichte, e enquadrá-las no interior do sistema inconsciente, latente, que as constituiria verdadeiramente. Tal posta no lugar adequado das representações poria fim aos sintomas.

 

Independente da teoria -ousada, sempre corajosa- há o temor de Freud em decepcionar suas relações com outros saberes. Difícil escapar ao determinismo que a Dinâmica do século XIX impôs como normativo dos fatos. Mas com isto se faz o desdobramento de uma dramática da histérica, a que converteria, somaticamente e psiquicamente, aquilo que não se suporta no psiquismo unitário.

 

Contudo, desde os “Três Ensaios”, (18) Freud mostrou como a subjetivação se dá especialmente através do regime das pulsões (digo “especialmente”, pois seus outros ensaios da época se dirigem a uma teoria do Simbólico, que prima o Desejo no seu regime especialmente incorporal). E que nestas o equilíbrio se faz de vários pontos diferenciais; ou seja, um sujeito sem um locus de unificação unitário. Pulsões parciais, impossíveis de totalização, constituindo sujeitos em regimes de subjetivação parcial.

 

Mesmo quando só pensa sujeitos desde sua constituição psíquica cêntrica, sujeitos não têm um centro ordenador único. Perversos, no sentido que lhes deu o Freud dos Três Ensaios, sempre, desde alguma pulsão parcial até a ordenação de seus inumeráveis atos e falas psíquicos, através de uma subjetivação também parcial.

 

As pulsões são para sempre infantis -toda pulsão é infantil, investindo já e agora, insistentemente- aquilo que nada tem a ver com algum suposto momento cronológico de evolução, mas elas também exigem necessariamente o desejo. Regime do paradoxo, ser o que nos conclama sem poder permanecer no chamado; clamor lábil e permanente, descontinuado, imprevisível. Não mais o Simbólico, ou a Simbólica contínua e recorrente; também não mais a moira, o quinhão destinado a quem dele sabe e não pode evitá-lo. Encontro de forças diferenciadas, fazendo sentido e significação parcial.

 

Nada de prévio, marcado desde sempre para acontecer a um sujeito que não tem como evitá-lo. O novo, que só se faz enquanto acontecimento, o devir quase sempre longe do previsível.

 

Neste texto sobre a especificidade das pulsões, tão depreciado pelas expectativas psicanalíticas estruturais e tão ansiado pelos acontecimentos, descontinuidade entre desejo e pulsão, convergência e coordenação entre ambos. Não mais “domesticação pulsional” ou “circuito da pulsão” e sim insistência e repetição afirmativas. De algum lugar, dever fazer um sujeito parcial, que pode recorrer temporalmente na reprodução, mas que também afirma outras temporalidades e transgride, irrompe sempre. Seus acasos não se inscrevem na ordem da reprodução esperada, mas são possíveis. Sua marca, como ensinará rigorosamente Freud (Para além do princípio de prazer, 1920g), é a inorganização, o longe do equilíbrio.

 

Todo simbólico é provisório, instalado também no agora da pulsão. Simbólicos são poderosos, mecanismos legiferantes que se reproduzem em nome do que domina e obrigam o psiquismo. Mas se elaboram sobre margens e alternativas, que disfarçam, fabricando-lhes próteses que já não se determinam desde seu centro. Se só há simbólico porque há nomeação, nomes não escapam das forças, que sempre os diferenciam. Forças que o ato simbólico de inscrever experimenta recapturar, nomeando-as e atribuindo-lhes lugar numa cadeia isomórfica.

 

Portanto, se se toma o amor unicamente como produto de um reprodução objetal, seus efeitos só poderão ser de longa duração e reprodução. Daí sua postura temporal no só-depois, na Nachträglichkeit. Normatividade por referência à lei paterna e a reprodução seletiva. Dramática de longa duração, tempo eterno na vida de algum indivíduo. Mas a sublimação do texto de 1919 já não nos remete para a fabricação de produtos culturalmente adequados, os que fazem uma civilização. Aparecem como pequenos fazeres por referência à multiplicidade cultural que sempre inclui infinito e o horror.

 

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Assim, temos duas abordagens diferenciadas e simultâneas de Freud. Uma diz respeito ao campo da significação, como unidade e reprodução de um “esquema”: a vontade cêntrica do complexo de Édipo. De onde derivaria o pedido amoroso único, que viria desde um centro organizador unitário com leis precisas de distribuição de afetos. Esta organização, mesmo quando marcada pela Falta, é uma estrutura exata com produtos que só podem existir desde sua postulação lógica de verdade. Sua marca central é a existência de uma temporalidade única, só-depois, que percorre-recorre o humano. Daí se fabricarem os “tipos”, desvios da norma que aparentemente se marcariam por referência à sua constituição edípica central. Teoria do amor equilibrado, reprodutor do desejo da família nuclear.

 

Outra abordagem de Freud, de um psiquismo que coexiste como cortes e transgressões, rupturas e descontinuidades. Spinoza dizia que liberdade e necessidade andam juntas, na perseveração do ser. Mas os psicanalistas, sabedores que a morte vem de dentro, nos negamos ao otimismo ontológico, pois sabemos que isto só se universaliza enquanto pura atividade, Besetzung, investimento, ocupação não dispersada. Onde a paixão não é mais o fracasso do amor idealizado, mas sublimação insistente, sem alcançá-la. (19) Psiquismo que, enquanto vida, procura insistir, fabricando sentido.

 

O que não emerge apenas psiquicamente pois nem todas as pulsões são psíquicas, mesmo constituindo os sujeitos. Sentidos de afirmação fugaz, mas intensa, forças que se provam nos encontros e se fazem sempre outras, produção diferencial. Tempos diferenciados e múltiplos, afirmativos. Investimento e repetição diferencial sexual, sem centro unitário. Abordagem que não propõe o evitamento da dor, mas seu acolhimento na relação transferencial para que, em apoiando (Anlehnung) a dor, esta possa ser criativa e não dispersiva. E, finalmente, entendendo as afirmações dos limites, aceitar o negativo no modo positivo, enquanto múltiplo: as castrações-fronteiras e não a castração.

 

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O psicanalista clínico tem um compromisso real com a expansão inconsciente, inseparável da expansão da existência: se ambas não existem concomitantemente, produz-se um regime conserva-dor da Psicanálise. A ética psicanalítica é produzida como possibilitadora de encontros mais amplos e expansivos, e não com representações imitativas e compromissos em torno de complexos fixos e fixados. Mesmo nos limites da busca de ajuda de alguém ou algo, forças se encontram, outras subjetividades emergem. Trata-se para o psicanalista de aceitar as paixões e o horror nas vivências e sustentá-los ativamente, não procurar inscrevê-los edipicamente: viver/deixar viver as paixões e os arrebatamentos, elaborá-los nos seus regimes inconscientes e não enquadrá-los e eliminá-los. No nosso trabalho, atendendo aos que insuportam suas vidas restritivas, não nos imaginamos campeões do Absoluto: jamais Napoleão desfilará junto às nossas janelas. Quando ele passa, o psicanalista deixa de estar em movimento e repousa estruturalmente.

 

Se nem o real é inteiramente racional, sabe-se que o trágico é uma manifestação diferente de qualquer visão de mundo, Weltanschauung. Não apenas lidamos com o inumano das diversas temporalidades e pulsões que constituem o humano, como provamos nossas próprias dificuldades e restrições por referência a outras questões mais amplas.

 

Enquanto homens políticos e sociais que somos (por mais aspas que alguns acrescentem à expressão), os psicanalistas que precisam suportar o horror e o trágico nas suas clínicas e instituições, nos seus pequenos pólemoi, aprendemos que se isto não impede os investimentos do horror, tem sobre ele um efeito de convergência trágica positiva, quando o exercitamos transferencialmente, distinto da dispersão que o devora e impede a faculdade de julgar.

 

A essência de uma coisa é o que lhe dá força e possibilidade de expansão, a universalização parcial e permanente do particular e do diverso, repetido através de outros encontros; e não o que a restringe, reproduzindo-se. Conviver com as subjetividades parciais é a força mas também a tragédia do próprio psicanalista. Que não se furtando do prazer de seu exercício teórico e clínico, aprende a conviver com as paixões e o horror dos outros. Ou seja, com as tragédias “pequenas”, os casos clínicos apenas fragmentos desarticulados, chamando para as diferenças pulsionais que não se fizeram, excessivamente inscritas no simbólico totalizador ou por demais dispersadas. Nem por isto dispensáveis.

 

Diante do texto de Freud que nos ocupou inicialmente, pensar e viver um tempo de afirmações diferenciais, onde as paixões não se reduzam à obrigação de amar de modo único. Mas ao primado do insistir e retornar, diferenciando.

 

 

 

NOTAS:

 

1 Freud (1910h) Um tipo especial de escolha objetal masculino (GW, VIII).

 

2 Chaim Samuel Katz, “Freud e a produção de diferenças” in Freud e as Psicoses. Primeiros Estudos. Rio de Janeiro. Xenon, 1994, p. 39ss. Insisto, como se acompanha nesse meu escrito, que este presente precisa ser fundado, estabelecido psicanaliticamente e não tomado no seu modo de representação. Ou seja, acolhe-se o presente no interior de uma elaboração que considera seus fundamentos. Contudo, ainda assim, na Psicanálise, o estatuto do presente é distinto do estatuto do Ser na elaboração da filosofia não-metafísica. Nossas questões passam especialmente pela constituição das subjetividades, delineadas desde a obra de Lacan.

 

3 A necessidade de estabelecer um estatuto metapsicológico para os conceitos psicanalíticos não se opõe à psicanálise em movimento. Porém, esta última não se limita à metapsicologia: nossa clínica, as expressões e relações culturais, sociais, políticas etc., bem como o estatuto teórico e a especificidade institucional e social inconscientes têm que ser sempre considerados para que a teorização psicanalítica possa lidar melhor com a produção inconsciente em seus vários regimes.

 

4 Insisto, o Wunsch freudiano é diferente da Begierde estruturalista, mesmo quando alguns pensam que ambas expressam o “desejo”. Freud sempre inclui os corpos como constitutivos do Wunsch, mesmo quando o é em regime de convergência com o psiquismo. A Begierde pensa os investimentos enquanto ordem discursiva, o que é inteiramente distinto do pensamento freudiano.

 

5 Peço que se observe que tal teoria terá modalidades de construções diferenciadas posteriormente, quando Freud enunciar a hipótese do Narcisismo. O que, queira-se ou não, só ganhou o estatuto que merece na contemporaneidade, com a obra e a clínica férencziana (mas, isto, como tantas outras questões, fica para uma próxima vez; não significa que o farei, mas, se como ensinou Nietzsche, o homem é o animal que promete, e ainda não me chegou o tempo do super-homem).

 

6 Daqui por diante, quando tipo se referir ao “tipo especial…”, virá entre aspas.

 

7 A faceta iluminista de Freud, de encontrar uma razão que lidasse com os objetos inestéticos (!!) é inapagável. Mas o que persigo aqui é o Freud que Yirmiyahu Yovel incluiu entre os “iluministas sombrios” (Spinoza et autres hérétiques. Paris. Trad. Seuil, 1991. Cf. também a dissertação de mestrado, ainda inédita, de Helcio de Carvalho Aranha, “Freud e o Iluminismo Sombrio”).

 

8 Alguns psicanalistas acreditam resolver a questão dizendo que isto não está no reino do prazer, mas no do gozo. E quem, os que precisamos estabelecer diferenças, no reino do subjetivo, escapa do gozo?

 

9 Penso que o que está inteiramente deslocado é este novo e exclusivo conceito de “Um gozo”, inteiramente separado do “prazer”, como se estivesse num lugar específico, topologicamente descritível. Novo platonismo, é o que alimenta boa parte da clínica psicanalítica contemporânea, que anuncia que psicanalisar é eliminar o gozo. Leitura inteiramente equivocada e, pior do que isto, bruta por vezes, especialmente com os chamados psicóticos.

 

10 Kathrin Holzermayr Rosenfield, O que faz o bode (Tragos) na “Psicanálise Trágica?” Palestra no VI Encontro da Formação Freudiana, 1997.

 

11 Freud (1919h). O Infamiliar GW XII, p. 229.

 

12 Especialmente desde o conhecido livro de Edmund Burke [1757], A Philosophical Enquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful (Oxford e Nova Iorque, Oxford University Press, 1992), se distinguem, no conhecimento ocidental, Belo e Sublime. Burke postulou que o belo se diferenciava inteiramente do sublime, pois este último diz respeito às experiências psíquicas que não podem ser reguladas logicamente, ocupando amplamente os sentidos corporais e incorporais com um horror prazeroso, ligado à dor e ao perigo e que não se caracteriza necessariamente pela longa duração. Kant [1764], Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (Campinas. Trad. Papirus, 1993) fala do caráter infinito e incomensurável (em grandeza e potência) do Sublime por diferença à finitude e comensurabilidade do Belo. Mas, dizia Kant, o que muito interessa aos psicanalistas clínicos, especialmente aos que lidam com psicóticos, desde seu horror infinitizado, aquele que está no regime sublimado não pode fazer juízo do Sublime.

 

13 Anatole Bailly, Dictionnaire Grec Français, 16ª edição. Paris. Hachette, 1950.

 

14 Numa linha diferente de pensar, aprendi com Serge Leclaire que nem toda letra pertence à cadeia de significantes.

 

15 Aqui se situam as fronteiras do que denominei de “dimensão do presente” da Psicanálise. Diante desta nova apreciação freudiana, somos instados a considerar um pensamento cuja temporalidade “se dá sempre contra o presente”, introduzindo o que Deleuze chama de “forma pura do tempo”. Peter Pál Pelbart, O Tempo não-reconciliado (São Paulo. Perspectiva-Fapesp, 1998), p. 178ss. (“O Impensado”).

 

16 Assim se estabelece um outro Freud, que afirma simultaneamente pulsões de vida e pulsões de morte e não uma oposição simples entre pares antitéticos, à moda de uma Lingüística ultrapassada (o que seria o cerne da crítica de um eminente lingüista francês: Émile Benveniste, “Remarques sur la fonction du langage dans la découverte freudienne” in Problèmes de Linguistique Générale. Paris. Gallimard 1966).

 

17 Freud (1905e[1901]), Fragmento de uma análise de histeria. GW, V.

 

18 Freud (1905d), Três ensaios para a teoria sexual. GW, V.

 

19 Relembro que Kant mostrou que, quando o horror ganha duração permanente, os que estão sob seus efeitos não podem fazer Juízo do Sublime, se impedem de torná-los faculdades de julgar. Quanto ao modo de articulação, na obra kantiana, entre as Urteilskraften determinante e sensível (corporais), e reflexiva , super-sensível (incorporais), ela se constrói na Crítica das Faculdades do Julgamento. Cf. Gérard Lebrun, Sobre Kant (organizado e traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo. Iluminuras

 

 

 

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