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Entrevista com Andréa Junqueira

quinta-feira, 22 novembro , 2012

 Leia a entrevista que a psicanalista Andréa Junqueira concedeu à Revista Freud.


Andréa Junqueira é psicanalista, Membro Titular e Coordenadora de Ensino da Formação Freudiana. Nesta entrevista ela fala sobre Freud, sua relevância nos dias de hoje e o trabalho da Formação Freudiana. A Revista Freud – Coleção Guias da Psicanálise é publicada pela Editora Escala.

 

1 – Quem foi Freud?

É o fundador da psicanálise, nasceu na região da Morávia, que então fazia parte do Império Austro-Húngaro, hoje na República Checa.
Em 1877, ele abreviou o seu nome de Sigismund Schlomo Freud para Sigmund Freud. Desde 1873, era um aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de Viena, onde pesquisava no laboratório de Neurofisiologia. Mesmo com dificuldades para ser reconhecido pelo meio acadêmico, Freud reuniu um grupo que deu origem, em 1908, à Sociedade Psicanalítica de Viena. Seus mais fiéis seguidores eram Karl Abraham, Sandor Ferenczi e Ernest Jones. Já Alfred Adler e Carl Jung acabaram como dissidentes. Elaborou conceitos fundamentais para a compreensão e manejo da Psicanálise como Inconsciente, transferência e pulsão.

 

2 – Como era o método terapêutico fundamentado na obra de Freud?

Freud ao se formar, em 1882, entrou no Hospital Geral de Viena; e trabalhou por seis meses com Charcot, um neurologista francês, no Hospital de Salpêtrière, em Paris. O médico demonstrava que era possível provocar sintomas histéricos induzindo ao estado hipnótico pacientes saudáveis.
Em parceria com o médico Joseph Breuer, seu principal colaborador, Freud publicou em 1895 os “Estudos sobre Histeria”.

Ao entrar Em contato com as neuroses na clínica e usando o método catártico de Breuer, ligado à hipnose,que consistia em provocar uma descarga (catharsis) dos afetos patogênicos ligados a acontecimentos traumáticos, a partir de tratamentos operados em estados hipnóticos, sentiu-se insatisfeito com este método pois apresentava duas questões: não trabalhava a origem da neurose, ocasionando somente a suspensão temporária do sintoma e o fato da constatação da existência de pessoas consideradas não hipnotizáveis, nesse sentido inacessíveis para o tratamento.

Abandonando a hipnose, Freud desenvolveu o método da associação livre, que é uma das bases da técnica psicanalítica . O paciente é convidado a falar o que lhe vem à mente e por meio de uma série de associações surge a possibilidade de chegar à etiologia da neurose tratada. Freud chega à uma conclusão decisiva para a teoria e técnica psicanalítica: o abandono do método que impõe a vontade do analista ao usar a sugestão (recurso de indução à hipnose) e privilegiar a iniciativa do paciente em falar o que lhe viesse à mente.

Esta construção gradual contribuiu para elaboração dos conceitos mais importante da sua obra : a noção de Inconsciente e Transferência.

 

3 – De forma geral, qual foi sua importância para a sociedade da sua época, e, também, para a sociedade atual?

Freud foi inovador quando apresentou as suas idéias para a sociedade vienense, que vivia um período de fascinação por temas como problemas sexuais e doenças mentais. Viena passava por um ápice no seu desenvolvimento cultural, mas paradoxalmente protagonizava uma grande crise política, a grande desintegração do império Austro-húngaro. A Psicanálise foi considerada um dos progressos intelectuais, em uma época de intensa experimentação de declínio político e que, segundo alguns historiadores, deve ter contribuído para um maior investimento no mundo mais voltado para uma interioridade muito específica (o inconsciente), visto que a realidades oferecidas e suas produções políticas, não ofereciam muito alento para os intelectuais vienenses.

Freud apresenta o sofrimento do corpo na histeria, considerado na época como uma verdadeira revolução, pois não se tratava mais de atribuir tais afetos ao corpo fisiológico; uma histérica produzia uma determinada paralisia incompatível com as doenças orgânicas catalogadas, e isso era um desafio para a ciência naquele momento.

Na atualidade a Psicanálise necessita se colocar permanentemente em questão ,se o seu método da cura pela palavra em tempos tão marcados pela precariedade da comunicação, com temporalidades tão diferenciadas, que vão produzir outras figurações de sofrimento psíquico. E os analistas de hoje precisam reapresentar muitas questões para o campo psicanalítico. A Psicanálise é, inseparavelmente, intemporal e atual.

 

4 – Em que casos tal metodologia era indicada para cura? Por quais motivos?

5 – Quais foram os resultados alcançados na época?

Acredito que inicialmente a Psicanálise possa ter emergido como método de tratamento quando a medicina da época foi apresentada aos enigmas dos sintomas histéricos, e a um outro tipo de sofrimento, o psíquico.

Freud conseguiu dar uma certa dignidade e visibilidade ao método de lidar com essas produções, acredito que os resultados obtidos na época produziram os seus efeitos e conseguiram uma sustentação tanto teórica quanto clínica. A produção dos seus predecessores também contribuiu para manter o vigor da Psicanálise durante tantos anos e até os dias atuais ,mesmo que as formas de expressão dos acontecimentos psíquicos tenham se transformado ao longo do tempo.

 

6 – Nos dias atuais, com tantas complexidades no comportamento das pessoas, o método de Freud ainda é indicado para os mesmos casos da sua época? Por quais razões?

Mesmo diante das grandes bases teóricas construídas e transmitidas durante todos esses anos, um legado deixado por Freud ,acredito também no movimento de subversão em si mesma da Psicanálise, na sua capacidade de reinvenção contínua, se havendo com essa multiplicidade de estímulos da vida atual.

Freud sempre falou que o Inconsciente é atemporal , algumas referencias se mantêm e acompanham a nossa clínica atual,mas a extensão desta sua questão, é o que nos impulsiona insistentemente nos nossos encontros teóricos e clínicos na Formação Freudiana.

Nos analistas precisamos nos haver com as produções que reconfiguram o mundo que compartilhamos e da experiência que vivemos. Da vida social à experiência subjetiva de cada vivente e a relação de forças produzida entre elas, tudo isto clama e requer um esforço na direção de rediscutirmos as bases sobre as quais construímos a teoria e a técnica psicanalíticas.

 

7 – E, quanto aos resultados continuam os mesmos? Se não, o que mudou?

A técnica passa uma confrontação e transformação diante das novas formas de sofrimento que chegam hoje aos nossos consultórios .Esse é um tema permanente na FF, eu diria que é o que nos provoca a nos encontrarmos para debater todas essas questões, nos organizarmos institucionalmente.

 

8 – Quais profissionais podem (e devem) utilizar o método Freud para a cura de seus pacientes? Somente psicanalistas ou psiquiatras e psicólogos também podem? Por favor, justifique seu posicionamento.

Para exercer a Psicanálise, se torna imprescindível o pertencimento à uma Instituição de Ensino Psicanalítico e fazer a sua trajetória pessoal, considerando que a transmissão deste saber e a formação de analistas não acontece no campo universitário. Este percurso poderá ser feito por médicos, psicólogos, profissionais da saúde e de algumas áreas profissionais com curso superior ( seguindo alguns critérios psicanalíticos).

Acreditamos nas exigências institucionais, que consistem num total de aproximadamente 8 semestres com aulas, trabalhos escritos, análise pessoal e trabalho clínico supervisionado, como dispositivos de capacitação e reconhecimento do exercício da Psicanálise, por psicanalistas que completam este percurso mínimo. Consideramos também um outro aspecto da formação do analista, um trabalho com continuidade. Através de nossos membros titulares, que realizaram o a sua trajetória institucional e se titularam e que continuam fazendo um trabalho institucional vigoroso, como apresentação de seminários , participação de grupos de estudos e da mobilização clínica.

 

9 – Como surgiu a Formação Freudiana?

Em 1992, um grupo de psicanalistas convocados por Chaim Katz reuniu-se para formar uma instituição preocupada em elaborar algumas questões da Psicanálise, circundando as preocupações do próprio Freud, que foram, por vezes, abandonadas por seus discípulos.

O grupo hoje, conserva o mesmo vigor desde a sua fundação, se constitui com uma exigência teórica e rigorosa que incluí e pensa as várias categorias do humano, acompanhada de um questionamento permanente da clinica psicanalítica. A base motivada do trabalho é pensar a Psicanálise como um saber transformador, sem compromisso com saberes restritivos em si mesmos, que não possam se colocar à prova de avaliações críticas.

Acompanhamos na nossa clínica sofrimentos que tendem a uma restrição da capacidade criativa de todo o psiquismo, são produções que inibem experiências expansivas. Esse é o campo de trabalho para o analista, tentar provocar alguma possibilidade de mudança.

Esta postura inquieta e original que Chaim chamou de Psicanálise em Movimento, leva-nos a produções intelectuais incisivas, marca da vitalidade que nos especifica.

 

10 – Qual é o seu objetivo?

A Formação Freudiana tem como distinção principal a formação de psicanalistas, a elaboração clinica e a elaboração de questões da cultura em geral segundo o registro psicanalítico do pensamento, sem poupar o questionamento permanente sobre o “tornar-se psicanalista” e a grupalidade possível dos analistas.

O conceito de “cura” é permitir ao individuo a possibilidade de se desvencilhar do seu excesso do mal-estar psíquico, que restringe seu psiquismo. O psicanalista tem, portanto, um compromisso ético com a expansão psíquica. A Formação Freudiana quer reafirmar este compromisso, voltando-se para uma investigação teórica adequada (e não apenas reprodutiva) que permita o livre desenvolvimento do questionamento.

Além de Freud, discutimos a obra de psicanalistas importantes para o pensamento e trabalho clínico como Sándor Ferenczi, D. W. Winnicott, M. Klein, Dolto , Fédida e Jacques Lacan.

 

11 – Podemos dizer que a Formação Freudiana contribuiu – e ainda contribui – para que os profissionais da área acompanhem as mudanças de perfis, de comportamento, distúrbios, fobias, estresse, etc… do mundo contemporâneo? Por quê?

Trata –se de uma responsabilidade para nós analistas em levantarmos sempre questões, e permanentemente nos disponibilizarmos nos nossos Seminários sobre a Técnica Psicanalítica a pensar sobre a clínica atual. O nosso objeto de reflexão seriam os efeitos dos estímulos/impactos das produções atuais (novas linguagens tecnológicas, os saberes contemporâneos, os efeitos da mídia e do consumo etc.) e como esse humano vai se constituir na presença de um outro. A produção de novos critérios de reconhecimento do sofrimento psíquico de quem nos procura, para uma tentativa de alívio, ou seja, que haja uma expansão psíquica, uma flexibilidade diante de certos acontecimentos que sejam excessivos e exijam um esforço de trabalho psíquico

Nós clinicamos com um instrumento teórico de certa forma quase-universal, precisamos destas bases referenciais, mas acompanhamos alguém na sua história, que produzirá oposições aos critérios apresentados pela teoria, reelaborando o campo teórico. Eis aí o nosso desafio, em estabelecer um constante diálogo entre a clínica e a teoria, revendo sempre as formas de intervenção do analista, pois lidamos com o que se denomina de casos-limite, aqueles dos analisando com certas precariedades de expressão verbal e tipos de sofrimento diferenciados, singulares, que nos provocarão a construir instrumentos mais sutis e ressonantes com a situação e “aprender” também com eles. São desafios constantes para quem exerce uma clínica psicanalítica.

 

12 – O que se aprende nas aulas da Formação Freudiana?

No nosso conteúdo programático temos 8 semestres módulos sobre a Teoria Freudiana, a Psicanálise Infantil, o Seminário sobre a Técnica. Como havia dito anteriormente, participamos de encontros como Mobilização Clínica, um lugar de experimentação e reflexão a partir de casos fragmentos de casos clínicos, com a participação dinâmica de todos os membros presentes.

Além da proposta mais formal que um curso de formação de analistas nos exige, oferecemos cursos de extensão e grupos de estudos sobre vários temas suscitados durante o nosso percurso. Atualmente estamos oferecendo Nietzsche e/ou a Psicanálise e começaremos um curso sobre Ferenczi e a clínica.

Realizamos recentemente debates sobre os filmes “A pele que habito” de Pedro Almodóvar e “Um método perigoso“ de David Cronenberg.

Outra proposta inquietante para nós, é multiplicidade da relação entre as produções estéticas e a Psicanálise. Estamos elaborando um encontro para pensarmos questões psicanalíticas nas expressões artísticas contemporâneas.

 

13 – Como elas acontecem e quem pode participar?

Para participar os interessados devem entrar em contato e obter as devidas informações sobre os critérios para o ingresso no curso de formação para analistas ou sobre o cursos extras.

 

14 – Há quanto tempo existe a Formação Freudiana e quantos membros (alunos, participante) possui?

Completamos 20 anos de existência com uma alegre comemoração num charmoso Café na cidade. Estruturamos duas Unidades de Ensino localizadas na Barra da Tijuca e em Ipanema. Atualmente contamos com 23 membros fundadores, um membro convidado e 35 membros em formação psicanalítica.

 

15 – Qual sua importância para a Psicanálise no Brasil?

A Formação foi fundada por Chaim Samuel Katz, num momento histórico da Psicanálise brasileira, marcada por grupos dissidentes das Sociedades de Psicanálise vinculadas à IPA (International Psychoanalytical Association). Neste sentido, penso que a FF historicamente já se fez num movimento político de se dispor a favor de uma “ Psicanálise em Movimento”, questionando sempre os seus aspectos mais dogmáticos.

 

16 – Que tipo de pesquisas são feitas hoje em dia sobre o método freudiano? Com quais objetivos?

Eu considero a confrontação entre a teoria e fazer da clínica psicanalítica como uma profunda reflexão, um espaço de reinvenção de recursos técnicos para lidar com situações que escapam aos nossos instrumentos teóricos e técnicos habituais. É imprescindível que se saiba o que se está fazendo, não estou colocando em evidência uma atuação ingênua do analista, e sim a possibilidade de compartilhar de experiências clínicas num campo próprio institucional (na FF temos uma experiência compartilhada que chamamos de Mobilização Clinica, criada por Chaim Katz) que produza um questionamento rigoroso e de sustentação em relação à clínica.

 

17 – Quais os impactos do legado de Freud para os profissionais da psicanálise?

O impacto é manter o papel central da Teoria e da Transferência, bem como a vivacidade e curiosidade sobre a obra do nosso grande mestre até os dias atuais.

 

18 – Em comparação a outros países, qual é o posicionamento do Brasil no que tange ao método de Freud?

Nos Estados Gerais da Psicanálise, um encontro mundial ocorrido na Sorbone em 2000, o Brasil teve a segunda maior representatividade, sendo escolhido como sede do evento seguinte. Temos um grande movimento da Psicanálise aqui no Brasil e acho que possuímos uma expressão em relação aos outros países, os que possuem forte adesão à Psicanálise.

 

19 – Quais são as perspectivas para o futuro das técnicas da metodologia freudiana?

Essa é a questão que nos move…essa inquietação provocada pela nossa experiência clínica e a urgência permanente na reinvenção da Psicanálise e de suas técnicas para lidar com o sofrimento humano.

 

20 – E quanto à Formação Freudiana, o que virá por aí?

Estamos investindo bastante no nosso site e blog como divulgação dos nossos referenciais teóricos e do nosso modo de ser institucional. Continuaremos com palestras e eventos. No próximo semestre ,nos dedicaremos à discussão mais intensa e específica sobre a formação do analista.

Estamos elaborando projetos de extensão e divulgação da Psicanálise para pessoas que ainda não conseguiram ter acesso ao atendimento psicanalítico ou às suas informações.

Contamos com um conselho de coordenação que vem trabalhando muito para levarmos adiante esse nosso percurso.

 

21 – Há algo a mais que julgue importante acrescentar?

Eu gostaria de trazer algumas considerações de Jacques Derrida, um grande filósofo que nos presenteou com sua conferência no grande encontro mundial os Estados Gerais da Psicanálise e veio ao Brasil convidado pelo Chaim e nos falou também brilhantemente no Planetário :

“ Prefiro em Freud as análises parciais, regionais, menores ,as sondagens mais aventureiras. Esses vislumbres às vezes reorganizam, pelo menos virtualmente ,todo o campo do saber. É preciso, como sempre ,estar disposto a se render a eles e poder lhes restituir sua força revolucionária.”

 

( De que amanhã… diálogo – Derrida,J – Roudinesco,E )

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